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A arte de dar um tempo a si mesma

Por Adriana Matos em 22/03/17 21:51 - Atualizada em 23/03/17 01:04
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Escrevo esse post como uma espécie de catarse. Sim, um desejo intenso de expurgar um sentimento constante e antigo, que em mim reside, de querer mais, incansavelmente, muito mais. Não falo de ter um carro potente ou uma casa enorme e com empregados; não falo de sapatos, bolsas ou roupas de marca. Sinceramente, sem hipocrisia alguma, essas são ambições que não ocupam minhas preocupações, muito menos significam promessa de felicidade para mim e nem cabem no meu  lattes. Sim, escrevo esse post, pois, sinto hoje uma necessidade de dar um tempo nesse que tem sido meu grande vício: estudar e estudar focando uma vaga numa universidade pública, seguir carreira acadêmica, produzir cada vez mais.

Sim, esse post é, para mim, uma carta de alforria. Quero me libertar da obrigação que me impus de, um dia, ser uma professora de uma estadual ou federal. Arranco as amarras da obrigação, o que não significa que abandono esse sonho. Porém, ao abrir os cadeados da pressa, da corrida contra o tempo, me liberto também da distância que me coloquei em relação a outros sonhos tão importantes quanto: o de me cuidar, o de ter tempo para mim mesma, tempo de passar o tempo sem nada fazer, ou fazendo o que eu bem entender, ler por ler, ir ao cinema sem culpa, tomar umas com amigos. Sonho de viajar, de passar os sábados e domingos, despreocupadamente, com minhas filhas, sem a cabeça voltada para a obrigação dos estudos.


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Escrevo esse post como uma espécie de catarse sim. Aqueles que acompanham o blog sabem que, há pouco tempo, defendi a minha dissertação de mestrado e, acreditem, já chegam à nossa volta o desejo, falas, fantasmas, mercado, sentimentos de que já devo pensar no Doutorado. Sim, quero muito. Sou uma viciada em conhecimento. E sei que é só um tempo mesmo. Mas preciso me libertar da obrigação de ser o que a sociedade tanto nos impõe... cada vez mais e melhor (mais e melhores títulos; mais e melhores publicações nas qualis A e B). É, como diz minha irmã, Patrícia Matos, mestranda em história, como se vivêssemos numa espécie de linha de produção. A minha dissertação, por exemplo, ainda sequer teve um de seus capítulos publicados e eu aqui... já pensando em doutoramento, em concursos. Sim, mais do que normal. Mas quero dar um tempo nessa normalidade acadêmica e usufriar do que já tenho. Filhas me esperando e um material farto de teoria e prática que precisa ser transformado em conhecimento para outros (minha orientadora já me cobrou - no melhor dos sentidos do verbo cobrar – uma cópia revisada que já vai chegar até ela para começarmos esse processo). E, por falar em Valquíria Borba, a minha orientadora, acabo por conseguir digerir melhor essa minha decisão também ao lembrar que ela é aquela que já chegou no ponto a que tanto almejava à custa de muuuuita luta, muito esforço, risos e lágrimas, saudades, distâncias enfim...e, agora, ela me ensina que tudo tem sua hora e a minha vai chegar. Portanto, cada coisa a seu tempo e, esse tempo, quero me dar. Obrigada, Val, por essa lição também e pelas futuras parcerias.

Sobre essa questão, Dalai Lama fala que são tantas as coisas que queremos, que desejamos, ao ponto de a sensação ser é a de que tudo isso não termina nunca, algo meio “poço sem fim”. Todos esses desejos são normais, claro. Porém, para que eles não nos façam mal de alguma forma precisamos, segundo ele, exercitar o contentamento, apreciar o que temos. Isso não significa nos tornarmos pessoas acomodadas, mas pessoas felizes com o que conquistamos e termos a capacidade de vivermos ainda felizes caso o que desejamos, por algum motivo, não se torne uma realidade.

Estudar não nos faz mal. Nunca... é meu alimento diário. Mas a ansiedade e a obrigação de alcançar títulos acadêmicos estavam me escravizando. Quero muito ser aprovada no Doutorado; quero por demais ser uma professora de universidade pública. Porém, não quero mais me OBRIGAR a tais conquistas e com o tempo que não seja o meu.


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É importante esclarecer que esse post nasceu como uma espécie de catarse depois da experiência que vivenciei esta semana, mais uma. Ao participar de uma seleção para uma vaga na UFRB – Língua Portuguesa para surdos -, fui, pela primeira vez na vida, reprovada numa prova escrita. Tudo bem que o décimo ponto não tinha sido objeto meu de tanta leitura, mas a minha experiência sobre a questão me deu segurança para a produção de um texto que, na minha opinião, merecia ao menos a média mínima para a aprovação. E eu não fui aprovada. O sentimento que veio foi de incompetência, e eu não sou incompetente. Parecia a dor de orgulho ferido de escritora, pois, me peguei entristecida mais pelo fato de ter um texto meu reprovado que ter sido eliminada da seleção.

Mas, como disse a professora da Uneb lá de Amargosa, poetisa, mulher que muito admiro, Ângela Vilma, “a gente também precisa ser condescendente conosco”. Pois bem, esse sentimento que me invadiu, ou melhor, que eu permiti que tomasse conta do meu coração; o fato do campus ser tão distante de minha casa; os meus peitos cheios de leite e doloridos durante a noite que passei lá; as minhas filhas precisando de apoio e orientação para o seu primeiro seminário; minha mãe, meu pai e irmã, novamente, tendo que ficar com a parte pesada de cuidar das minhas três Marias; o apoio de minha cunhada Fabihana que é professora da UFRB, doutora, mãe de dois pequenos e que me incentivou a participar da seleção e também me incentiva a não desistir; Joací, pai das Marias, que me levou àquela cidade e voltou somente depois que havíamos identificado local das provas e onde eu iria ficar; as pessoas que conheci na seleção – uma, que está no pairo ainda, perdeu a mãe de 49 anos, ano passado, para a gripe H1N1; outra, que foi reprovada junto comigo, perdeu o irmão repentinamente há quatro meses; o candidato gaúcho doutor que veio do Rio de Janeiro, todo nervoso, ansioso, era sua nona tentativa, cheio de humildade (estou na torcida por vocês); a escritora Lodeni Karnopp, mulher respeitadíssima da Língua Brasileira de Sinais aqui no país, teórica que fundamentou meu trabalho dissertativo, muito simples e falando da importância que nós professores temos também na rede básica junto aos surdos; a professora Nancy, da Ufba, a quem sinalizei o desejo de contato futuro para pensar meu doutorado (não resisti), enfim, tudo isso fiquei processando na minha volta pra casa...longa e demorada volta de ônibus. E, pela primeira vez, durante esses anos de estudos, leituras, produções, senti o desejo de não mais brigar comigo mesma por não ter conseguido ainda. Uma verdadeira libertação.

E escrevo esse post com o desejo de liberdade, para que, em meu tempo – que não será nos próximos quatro meses, juro pra mim mesma : ) –, possa recomeçar meu caminho rumo a esse sonho acadêmico. Mas, exercitando sempre esse desapego com o que ainda não consegui, sem me culpar, sem me tirar das horas comigo mesma (voltei hoje à academia, passei a tarde  de ontem, sem pressa, estudando e orientando o tal seminário com as minhas filhas; de ontem pra hoje, horas e horas com Maria Alice (voltei até a fazer vídeos ; )!!) e, o melhor, tranquila, sem sentimento algum de dívida para comigo, para com o mundo.

Como uma catarse, esses sentimentos são aqui fincados, em palavras, no papel – mesmo que digital - e, como num confessionário, me liberto desse espírito acadêmico que tanto amo. Mas, é somente uma libertação de alma, não se trata de uma separação de corpos. Acredito muito que tenho meu papel enquanto pesquisadora de ideias e práticas que façam do mundo da educação, do cenário da aprendizagem de ouvintes e surdos, algo também libertador e emancipatório. Sim, me liberto do que me aprisionava (a obrigação que me coloquei de galgar à academia a todo custo e o mais rápido possível), mas permaneço casada com o meu compromisso de perseguir o meu sonho. É só uma parada, viu? Em breve, quero dar notícias do doutorado e dos concursos da vida...porém, de maneira mais leve e feliz.

 

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Adriana Matos e Cristiane Melo


Somos Adriana Matos e Cristiane Melo. Mulheres apaixonadas pela vida, pela profissão que escolhemos, pela família e pelas filhas. Criamos o blog para inspirar as pessoas a viverem mais e melhor, de forma que tenham qualidade de vida e (re) aprendam a viver diariamente de maneira plena e saudável, cuidando de si e do outro, superando obstáculos, alimentando projetos, estabelecendo metas e realizando sonhos. saiba mais

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