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Canudos: a oração e o combate, um livro, dois amigos e como trabalhar Canudos em sala de aula

Por Adriana Matos em 13/08/18 21:33 - Atualizada em 13/08/18 22:54
(Foto: Noite de autógrafos)

Esse é um mês muito especial para meu amigo Telito Rodrigos, professor de História da primeira escola em que lecionei, após ser aprovada no concurso do Estado (Colégio ACM, em Antonio Cardoso, Bahia) e um amante da música e poesia do e sobre o sertão e de todas as histórias sobre o beato Antônio Conselheiro, do movimento Canudos. É que, no dia 3 de agosto, ele lançou seu segundo livro intitulado “Canudos: a oração e o combate”.

Um autodidata e pesquisador ferrenho da Cultura Popular Sertaneja, Telito também é ativista cultural e, nesta obra prefaciada pela professora doutora em Memória, Linguagem e Sociedade (UESB), Renailda Cazumbá, traz curiosidades da história pessoal do beato, sua relação com a fé e a própria capacidade de mobilização social de Conselheiro. O mais interessante é que Telito não só intenta documentar sob seu olhar e sensibilidade de quem revisita personagens e fatos desse movimento, mas nos apresenta músicos, literatos, ativistas e agentes sociais que não deixaram o acontecimento morrer no esquecimento.

Estou muito feliz com mais essa conquista de meu amigo Telito. Acredito muito que a escrita é sim uma ferramenta de transformação. Vejo a palavra como porções de encantamento. Por isso, invisto tanto nela, dentro e fora da sala de aula. Por isso, admiro quem dela faz o bom uso. Espero mesmo que tenhamos a oportunidade de ver o sertão desenhado em mais e mais páginas por esse professor e que essa obra venha a servir de injeção para aulas mais significativas sobre a questão. Para isso, pedimos a um outro amigo, também professor de História, Roberto Luiz Carneiro Lobo, que nos apresentasse  possíveis temas para discussões em sala de aula a partir do movimento liderado por Antônio Conselheiro.


Canudos na sala de aula: dicas do professor Roberto Luiz

Professor de História e Mestre em Comunicação

Roberto é outro profissional que muito admiro e que faz das palavras um evento. Sim, alunos e alunas e todas as pessoas que têm ou tiveram a oportunidade de -lo falar sobre qualquer assunto sabem do que estou dizendo. Vivo repetindo que sou uma pessoa muito tímida e que escrevo muito melhor do que falo, mas, para encantar em sala de aula, sempre busco aprender com as pessoas com quem tenho a oportunidade de conversar. E Roberto, além de lidar muito bem com as palavras faladas, nos ensina estratégias, caminhos a serem trilhados para atingirmos da melhor maneira o que queremos em sala. 

Quando o assunto é o movimento de Canudos, por exemplo, uma coisa a que o professor Roberto chama a atenção é o fato de não podermos esquecer que outros movimentos sociais ocorridos em outros estados também precisam ganhar importância nas discussões em sala. Mas Canudos entra na história como um movimento que significaria um atentado à manutenção do status quo da nova República que mexeria com uma série de direitos e com o modo como a sociedade passaria a ser regida, por isso chama tanto a atenção. Além disso, entender que aquelas milhares de pessoas que escutavam e seguiam a voz do beato Antonio Conselheiro fugiam da fome e alimentavam um medo muito forte em relação ao fim do mundo precisa ser levado em conta também. 

Sim, muitos acreditavam que o fim podia estar chegando. “Porque na cabeça de uma pessoa que vivia no campo, analfabeta, com o catolicismo popular extremamente aflorado, aquela seca e a repercussão da saída da monarquia para o modelo republicano que nem entendia o que era (ainda hoje, muitos são os que não conseguem conceituar a República, distinguir o que a gente chama de regime de governo de um sistema de governo; diferenciar o funcionamento do presidencialismo do parlamentarismo. As pessoas ainda confundem que monarquia é algo muito atrasado e não lembra que uma das principais nações do mundo é um regime monárquico parlamentarista, que é a Inglaterra. É muito confuso na cabeça das pessoas. Agora, recuemos 100 anos, 1897, que é quando termina a guerra”, lembrou Roberto.

Mas então como problematizar esse acontecimento sem romantizá-lo e, principalmente, não reduzi-lo a fatos a serem contados simplesmente? Esse foi o meu pedido a Roberto que nos apresentou cinco pontos que, em sala de aula, podem ser trabalhados não apenas nas aulas de história, mas podem e devem ser trazidos à discussão porque  nos fazem pensar o nosso presente também; nos fazem compreender realidades tão próximas e temas que nos cercam a todo instante. Seguem os pontos sugeridos pelo professor:


1.    Discutir o que é religiosidade e o que é religião. “O movimento de Canudos é um grande exemplo pra trabalhar isso. O que é uma religião oficial e o que é aquilo em que o povo acredita, o que o povo segue?”;


2.    A contestação do sistema. “O que se criticava era a cobrança de impostos, era a ausência da igreja católica nas decisões do estado, é uma crítica ao sistema.”;


3.    A fuga da fome. “O problema da indústria da seca, a manutenção do poder dos coronéis, que se utilizava do homem pobre para manter as relações que ele tinha. É o início da política eu esta associada à logica do café com leite, mas que é chamada de política dos governadores, onde tinha o coronel que controlava os votos (abertos e de cabresto). Este barganhava coisas com o governador que, por sua vez, barganhava com o presidente que era carta marcada”.


4.    A discussão sobre comunitarismo. “Como a sociedade consegue viver dividindo aquilo que ela consegue produzir em situações extremas de pobreza? Podemos fazer comparações com sociedades africanas, americanas indígenas nesse modelo, porque o modelo era assim”;


5.    A proibição do álcool e da prostituição dentro do arraial de canudos e a ausência do sistema monetário. “Quando as pessoas entravam no arraial, elas eram obrigadas a pegar tudo que elas tinham de riqueza e  entregar ao Antonio Conselheiro que convertia isso em alimentos, em produtos para o bem comum. É a discussão socialista, comunista. Canudos não era um movimento comunista, mas comunitarista, em um modelo primitivo, onde toda riqueza que entrava era compartilhada no grupo”.


Então, como você costuma trabalhar essa temática em sala de aula? Deixe aqui suas dicas também. Espero que toda poesia e leveza presentes no livro de Telito Rodrigues e as reflexões e dicas de Roberto Luiz possam fazer das suas aulas sobre o tema momentos ainda mais ricos e encantadores.

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