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O maior Carnaval do mundo tem lugar para a mulher?!

Por Andreza Anjos - 25 de fevereiro de 2020

Era sábado de carnaval e as mulheres que pulavam atrás do trio, ou vibravam assistindo pela TV, não demonstravam tanto medo do coronavírus como o medo que sentem diariamente de serem mortas.
A luta das mulheres por respeito e igualdade deve sim ser compartilhada pelos homens e suas vozes, devem estar numa atividade sincronizada.
Lélia Gonzáles, feminista negra, lá nos anos 60, nos orientava sobre as pautas e os atravessamentos na vida de mulheres negras, mulheres pobres e mulheres socialmente privilegiadas, mas na categoria de gênero oprimidas.
Seguimos com Ângela Davis seguindo este pensamento e pautando questões outras que, distribuídas entre homens e mulheres negras, abarcam as três categorias.
Aqui mesmo, nesta cidade de Salvador na Bahia, contamos com Carla Akotirene dando aulas diuturnamente sobre seu trabalho profissional e espiritual de cuidado com a vida das mulheres, sobretudo as que partilham de um mesmo legado ancestral.
Mas o carnaval, o que tem com isso?
Nas avenidas, passam blocos que têm a identidade reconhecida pelo público pelo assédio sem precedentes às mulheres, homens de todas as raças e classes comungam da mesma fantasia momesca para autoridade do machismo.
Em cima do trio, um homem negro, de classe baixa que emergiu com o mecanismo musical, seu talento e seu grande público periférico e o gourmet de favela, abre uma fala sobre violência contra a mulher e cai num desesperado apelo pelo protagonismo de uma pauta tão ampla quanto a corda que separa o bloco da multidão.
“Antes dessa moda do feminismo, o Psirico já falava das mulheres, claro que algumas mulheres já se posicionavam…”
A fala se encerra e entra a música do carnaval daquele ano: “Mulher brasileira é toda boa”. Nossa carne até pode ser de carnaval, mas nossa linha do tempo nos diz que sempre estamos lutando para que não mais seja a carne mais barata do mercado.
A ideia do mercado que fez o acordo racial é fazer que acreditemos que a referida música enaltece a beleza da mulher ‘brasileira’, mas Elisa Lucinda, no lírico de sua consciência, nos oferece ‘Mulata tipo exportação’ e isso também foi um pouco antes da música do carnaval.
Então, este cantor, um homem cis, negro, de origem empobrecida, filho de uma mulher negra empobrecida, calejado de presenciar violências raciais, de gênero e classe contra mulheres e homens nos blocos de carnaval, passou pelo cinismo fingido de ingenuidade quanto tenta tomar para si sozinho uma narrativa de quem fez e veio muito antes dele, inclusive de quem pautou ele estar no carnaval. Vale lembrar que Mãe Hilda Jitolu foi a mulher que criou o primeiro bloco afro e disse ao mundo que o negro poderia e deveria estar na avenida sim.
Mulher negra não é bagunça !
Peça agô antes de entrar na avenida, ali embaixo, as mulheres do isopor, que você tanto cita, já fizeram muito mais pelo bem viver das mulheres que sua ‘música do carnaval’. A mulher negra, não tem o direito de descansar no carnaval, porque tem que parar pra ensinar homem preto que fundamento de candomblé vai até depois da porteira, e respeitar a história dos mais velhos e reconhecer seu lugar é necessário.
Você paga o seu preço pra ser quem você é, mas isso não diz sobre quem não colhe os louros da jogada.  Lembremos, o acordo não é coletivo, a causa é.

 

Andreza Anjos – Email: aanjos451@gmail.com / IG @aanjos451 / Twitter @AndrezaBenguela

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