Desvendando o cérebro autista: pesquisa baiana abre caminho para diagnósticos mais precisos e novas terapias

Desvendando o cérebro autista: pesquisa baiana abre caminho para diagnósticos mais precisos e novas terapias

Estudo inovador da UFBA, liderado pelo pesquisador Kleber Fialho, identifica biomarcadores inéditos que diferenciam o cérebro de adolescentes com TEA e propõe novas estratégias de reabilitação.

A ciência baiana acaba de dar um passo gigantesco para a compreensão do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em um estudo de vanguarda, defendido como tese de doutorado no dia 16 de dezembro de 2025 e recentemente publicado em um periódico científico internacional de alto impacto, o pesquisador Kleber Lopes Lima Fialho, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), revelou descobertas que podem transformar a forma como o autismo é diagnosticado e tratado.

A pesquisa, intitulada “Identificação de biomarcadores neurofisiológicos, motores e emocionais no Transtorno do Espectro Autista”, não se limitou a uma área de estudo. Pela primeira vez, ela integrou três ferramentas tecnológicas de ponta para “mapear” o cérebro, os movimentos e as emoções de adolescentes autistas e não autistas: a eletroencefalografia quantitativa (qEEG), que analisa a atividade elétrica cerebral; a biomecânica, que estuda a qualidade do movimento; e o software FaceReader, que rastreia microexpressões faciais.

O resultado é um retrato multifacetado e inédito que escancara as diferenças fundamentais no processamento sensorial e motor de pessoas com TEA. Enquanto os adolescentes não autistas apresentaram uma reação cerebral típica diante de estímulos visuais e sonoros, o cérebro dos jovens com autismo mostrou um padrão completamente diferente.

Os principais achados: um cérebro que não filtra e um corpo que não se adapta

O estudo de Fialho identificou três diferenças cruciais:

1. Um “nevoeiro” cerebral e a falta de foco: O cérebro dos adolescentes com TEA apresentou uma atividade muito maior de ondas Delta, associadas ao sono profundo e à imaturidade cortical. Simultaneamente, ele não conseguiu reduzir as ondas Alfa, que são as responsáveis por “filtrar” os estímulos do ambiente.
o Qual é a consequência? “É como se o cérebro autista estivesse em um estado constante de ‘névoa’, incapaz de se preparar adequadamente para processar novas informações sensoriais. Enquanto um cérebro não autista ‘desliga’ o ruído de fundo para se concentrar no que importa, o cérebro autista permanece hiperativo e sem esse filtro, o que ajuda a explicar as crises sensoriais e a sobrecarga tão comuns no dia a dia”, explica o pesquisador.
2. Rigidez no movimento: Através de uma técnica avançada de análise de movimento (MED), os pesquisadores descobriram que os adolescentes autistas têm uma estratégia motora mais rígida e abrupta. Em situações com estímulos visuais, enquanto os não autistas ajustavam seu equilíbrio de forma suave e otimizada, os jovens com TEA não conseguiam fazer essa adaptação, mantendo um padrão de movimento instável.
o Qual é a consequência? Essa rigidez motora, agora objetivamente medida, está ligada às dificuldades de coordenação, equilíbrio e planejamento de ações, impactando desde a prática esportiva até tarefas simples do cotidiano.
3. Emoções contidas: Embora a análise facial não tenha mostrado diferenças estatísticas entre os grupos, a predominância de expressões neutras e de tristeza em ambos os cenários reforça a necessidade de se criar estímulos mais complexos e naturais para estudar a emocionalidade no autismo, indo além de caretas e sorrisos forçados.

Ineditismo e mudança de paradigma

O grande mérito da pesquisa, orientada pela professora Dra. Rita de Lucena e coorientada pelo Prof. Dr. José Garcia Vivas Miranda, é justamente a sua abordagem multimodal. Até então, a maioria dos estudos analisava essas áreas de forma isolada. Ao integrá-las, Fialho conseguiu demonstrar que as alterações no cérebro (as ondas Delta) estão diretamente correlacionadas com as alterações no movimento (a rigidez motora).

“Estamos diante de uma mudança de paradigma”, afirma Fialho. “O autismo não é apenas uma condição psiquiátrica ou comportamental. É uma condição que afeta a integração de todo o sistema nervoso, do cérebro ao músculo. Nossos achados sugerem que o cérebro autista, ao gerar um sinal ‘ruidoso’ (ondas Delta), prejudica a capacidade de planejar e executar movimentos suaves e de filtrar as informações do ambiente. É um ciclo que conecta a neurofisiologia ao comportamento de forma direta.”

O impacto na comunidade científica é imediato. A pesquisa oferece um conjunto de biomarcadores (assinaturas biológicas) objetivos, que podem ser usados no futuro para auxiliar no diagnóstico precoce e mais preciso do TEA, que hoje é essencialmente clínico e observacional. A combinação do qEEG com a análise biomecânica mostrou-se uma ferramenta poderosa e sensível para diferenciar os grupos.

O que fazer? Um caminho para a neurorreabilitação

Diante dessas descobertas, o estudo não apenas aponta os problemas, mas também sugere caminhos inovadores para a intervenção. As pistas deixadas pela pesquisa de Kleber Fialho abrem novas perspectivas para a neurorreabilitação:

Treino de autorregulação sensorial: A confirmação da disfunção no filtro sensorial (ondas Alfa) valida o uso de técnicas como o neurofeedback. Essa terapia ensina o paciente, em tempo real, a modular sua própria atividade cerebral, aprendendo a “ligar” e “desligar” as ondas cerebrais de forma mais eficiente. O objetivo é treinar o cérebro autista para que ele consiga, voluntariamente, reduzir o “ruído” e focar no que é relevante.
Fisioterapia e terapia ocupacional de precisão: A identificação de um padrão de rigidez motora (índice W e α) permite que fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais criem programas de exercícios muito mais específicos para melhorar a suavidade e a adaptabilidade do movimento, e não apenas a força ou o equilíbrio. A pesquisa sugere que ambientes com menos estímulos visuais podem, inicialmente, ajudar no aprendizado motor.
Ambientes adaptados: No campo educacional e social, a pesquisa reforça a importância de se criar ambientes “amigáveis ao autismo”, com controle de estímulos sensoriais (luz, som) para evitar a sobrecarga e permitir que a pessoa possa interagir e aprender com mais qualidade.

A tese de doutorado, agora imortalizada em um artigo científico, coloca a Bahia e a UFBA na vanguarda da pesquisa mundial sobre o autismo. Mais do que números e gráficos, o trabalho de Kleber Fialho oferece uma nova lente para enxergar o universo autista, promovendo empatia baseada em evidências e, principalmente, oferecendo esperança concreta para o desenvolvimento de intervenções mais eficazes e personalizadas.

Kleber Lopes Lima Fialho é psicólogo, neurocientista, mestre em Psicologia e doutor em Medicina e Saúde ambos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), pioneira na técnica de neuromodulaçãoautorregulatória, É autor do estudo “Characterizationof Neurophysiological, Motor, and EmotionalBiomarkers in Adolescents with ASD”, publicado na revista Clinical EEG and Neuroscience (SageJournals), Atuou como pesquisador do grupo de neuromodulação da FAMED-UFBA e é CEO do Instituto KF Neurociência do Comportamento.

Últimas Matérias

Hospital Clériston Andrade amplia cadastro de doadores de medula óssea em ação conjunta com a HEMOBA

Hospital Clériston Andrade amplia cadastro de doadores de medula óssea em ação conjunta com a HEMOBA

A Agência Transfusional do Hospital Geral Clériston Andrade realizou, nesta quarta-feira (25), uma mobilização para cadastro de novos doadores de...

Redes sociais e os reflexos na saúde de crianças e adolescentes

Redes sociais e os reflexos na saúde de crianças e adolescentes

O uso cada vez mais precoce e prolongado das redes sociais tem provocado mudanças significativas na rotina, no comportamento e...

Feira contabiliza quase 800 casos de diarreia em 30 dias

Feira contabiliza quase 800 casos de diarreia em 30 dias

O mês de janeiro acendeu um sinal de alerta para a saúde pública no município de  Feira de Santana. Dados...

Duas PDPs para produção de medicamentos na Bahiafarma são assinadas em missão na Coreia do Sul

Duas PDPs para produção de medicamentos na Bahiafarma são assinadas em missão na Coreia do Sul

Em agenda oficial na Coreia do Sul, a secretária da Saúde do Estado, Roberta Santana, acompanhou a agenda para a...