“Problema não é só o tempo de tela, mas o que os jovens consomem”, alerta psiquiatra

“Problema não é só o tempo de tela, mas o que os jovens consomem”, alerta psiquiatra

Crianças e adolescentes concentrados em frente às telas, principalmente celulares, têm se tornado uma cena cada vez mais comum. Vídeos, jogos e, principalmente, redes sociais atraem a atenção por horas, muitas vezes sem supervisão dos pais. O tema é alvo de estudos e preocupa médicos e especialistas. O psiquiatra Luis Augusto Rohde, referência internacional no assunto, alerta que mais importante do que o tempo de uso é o conteúdo acessado pelos jovens.

“O que tem se visto nas pesquisas é que muito mais do que o tempo, importa a qualidade do que se acessa nas telas. E as direções são, na verdade, bidirecionais. Indivíduos com questões de saúde mental, como situações de fobia social, TDAH e ansiedade, acabam buscando mais as telas do que indivíduos que têm um desenvolvimento típico, muito mais do que o tempo excessivo de telas gerando alterações de saúde mental”, afirma.

Durante a 36ª Semana da Enfermagem, realizada pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), o professor do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência da instituição apresentou estudos e avanços da ciência em relação ao tema. A maior preocupação, segundo ele, está relacionada às redes sociais. “Principalmente entre meninas, existe um efeito deletério ligado à comparação de autoimagem e ao cyberbullying. Aqui a gente tem um sinal mais intenso de associação com questões de saúde mental”, ressalta.

Rotina conectada

Anelise Demschinski é mãe de Anthony Raul Demschinski Pereira, de 8 anos. Ela conta que o menino usa o celular por pelo menos quatro horas por dia. “Ele acorda e já vai ver o celular. Chega em casa e também fica no celular. Só durante a aula que ele não usa, mas está sempre com o aparelho”, relata. O conteúdo preferido são vídeos no YouTube, principalmente desenhos.

Ela afirma que a internet já ensinou palavras em inglês para Anthony antes mesmo da escola. Por outro lado, acredita que o tempo prolongado em frente às telas influencia no humor do menino. “De vez em quando ele quer colocar em prática em casa alguma coisa que vê na internet, como responder aos pais”, revela.

Anelise também diz já ter percebido sintomas de ansiedade no filho relacionados ao uso das telas. “Influenciou sim, porque eu já vi que, nos dias em que digo para ele não pegar o telefone, ele fica mais calmo. Aí ele vai ler, pintar, desenhar, brincar com massinha de modelar e fazer outros tipos de atividade”, conta.

Já Danielle Oliveira, 45 anos, é mãe de Anita Ungaretti, 12. Ela revela que a menina também usa o celular por pelo menos quatro horas por dia, com mais frequência nos fins de semana. A rede social TikTok é o conteúdo preferido. Para tentar diminuir esse tempo, Danielle utiliza aplicativos de bloqueio e controle parental e incentiva outras atividades.

“Ela tem várias atividades: joga vôlei, faz inglês e participa de atividades religiosas. Se envolve com atividades em grupo para não precisar ficar tanto tempo nas telas. Se ela vier para casa e não tiver um amigo para conversar, vai acabar ficando no celular. Eu incentivo outras coisas também para ela ter convívio com crianças fora da sala de aula”, afirma.

Ela não observa mudanças de comportamento e monitora questões relacionadas à autoexposição e comparação nas redes sociais. No entanto, Danielle reconhece que parte do interesse da filha pelas telas surgiu dentro de casa.

“Muito cedo ela teve contato com as telas. Eu dava celular com desenhos para entreter ela. Era o jeito que eu conseguia trabalhar e entretê-la ao mesmo tempo. Não consegui não dar a tela para ela”, conta.

O papel dos pais

Referência mundial em Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o psiquiatra Luis Augusto Rohde afirma que os eletrônicos não são necessariamente vilões para crianças e adolescentes.

“O uso que os pais muitas vezes permitem de forma inadequada é que pode gerar riscos maiores. Então é importante que os pais saibam utilizar isso de forma adequada”, afirma.

Não é incomum ver crianças com Transtorno do Espectro Autista concentradas utilizando o celular. Segundo Rohde, é preciso compreender o contexto desse comportamento.

“É importante entender que muitas vezes ela pode se refugiar na tela porque tem dificuldade de interação social. Precisamos desenvolver programas que melhorem essa interação e trabalhem essas dificuldades para que ela não precise se refugiar apenas nas telas”, explica.

O especialista também lembra que os jovens aprendem pelo exemplo dentro de casa. “Não adianta eu querer que uma criança fique menos tempo na tela se, na hora do almoço ou da janta, eu estou olhando a rede social ou passando o tempo livre jogando”, afirma.

Rohde também orienta os pais sobre o momento de procurar ajuda médica. “É quando o uso se torna patológico, seja pela frequência, pela abstinência ou pela interrupção do desenvolvimento de outras atividades. Quando começam a surgir sinais comuns a diferentes dependências, nós temos que ficar preocupados”, alerta.

Por último, o psiquiatra chamou atenção para a qualidade das informações sobre doenças mentais divulgadas nas redes sociais.

“Tem um estudo que avaliou os 100 maiores posts sobre TDAH no TikTok, que somavam mais de meio bilhão de visualizações. Foi analisada a adequação do conteúdo desses posts, e mais de 50% do que era descrito como sintoma de TDAH não tinha relação com o transtorno. Então, o problema da busca de informação na rede social é a qualidade da informação”, afirma.

Rohde se refere a um estudo canadense publicado em 2025 no periódico PLOS One, que analisou os 100 vídeos mais populares do TikTok sobre TDAH. A conclusão foi de que 48,7% das alegações sobre sintomas da doença foram classificadas como desalinhadas ao Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria.

Apesar disso, o psiquiatra defende a educação de influenciadores digitais e a qualificação dos conteúdos divulgados nas redes sociais devido ao alcance dessas plataformas.

“Nós temos que fazer uma educação dos influencers e trabalhar com o que chamamos de navegadores digitais, pessoas que podem ajudar em um uso mais adequado e racional dessa busca de informações nas redes sociais”, finaliza.

Recomendações

O governo federal lançou, em 2025, o guia Crianças, Adolescentes e Telas, reunindo recomendações para famílias, escolas e responsáveis sobre o uso de dispositivos digitais por crianças e adolescentes. O documento alerta que o uso excessivo de telas pode estar associado a atrasos no desenvolvimento cognitivo, emocional e da linguagem, além de problemas de saúde mental.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também possui o Manual de Orientação #MenosTelas #MaisSaúde para auxiliar pais e responsáveis a lidar com essas questões.

Entre as principais orientações estão:

– evitar a exposição de crianças menores de dois anos às telas, mesmo que passivamente;

– limitar o tempo de telas a, no máximo, uma hora por dia, sempre com supervisão, para crianças entre dois e cinco anos;

– limitar o tempo de telas a uma ou duas horas por dia, também com supervisão, para crianças entre seis e 10 anos;

– limitar o tempo de telas e videogames a duas ou três horas por dia para adolescentes entre 11 e 18 anos, evitando “virar a noite” jogando;

– evitar telas durante as refeições e desconectar os aparelhos uma a duas horas antes de dormir em todas as idades;

– garantir acompanhamento familiar ou de educadores no uso de dispositivos eletrônicos, aplicativos e redes sociais durante a adolescência.

Nas escolas, a recomendação é evitar o uso não pedagógico de celulares e tablets, especialmente na primeira infância. O guia aponta que atividades como brincadeiras, interação social, esportes e convivência familiar devem ser priorizadas em relação ao tempo de tela.

Outro alerta envolve os mecanismos das plataformas digitais, como notificações, rolagem infinita e algoritmos de recomendação, que incentivam o uso prolongado dos aplicativos. Os documentos ressaltam ainda que o exemplo dos adultos é decisivo, já que o comportamento dos pais e responsáveis influencia diretamente os hábitos digitais das crianças e adolescentes.

 

Últimas Matérias

Ansiedade de alta performance

Ansiedade de alta performance

Existe um tipo de ansiedade que nunca aparece nas estatísticas de afastamento. Não paralisa, não impede, não gera licença médica,...

O que a ciência mostra sobre o cérebro de quem medita todos os dias

O que a ciência mostra sobre o cérebro de quem medita todos os dias

 O Dia Internacional da Meditação. Para quem trabalha com saúde mental, a data não chega como ocasião decorativa. Ela chega...

A insônia frequente não se deve apenas ao estresse, mas sim à queda de melatonina causada pela exposição à luz azul à noite

A insônia frequente não se deve apenas ao estresse, mas sim à queda de melatonina causada pela exposição à luz azul à noite

Insônia frequente nem sempre nasce só da tensão do dia. Em muitos casos, o problema passa pelo relógio biológico, pela...

Hipertensão arterial: a doença que cresce entre jovens

Hipertensão arterial: a doença que cresce entre jovens

A hipertensão arterial é frequentemente chamada de doença silenciosa porque pode evoluir por anos sem sintomas perceptíveis, enquanto provoca danos...