AVC não espera: neurocirurgiã alerta que cada minuto pode determinar as chances de recuperação
Na Bahia, mais de 17 mil internações por AVC são registradas anualmente na rede pública; especialista explica os sinais de alerta, os fatores de risco e quando a neurocirurgia pode ser necessária
O Acidente Vascular Cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame, continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil. Na Bahia, são mais de 17 mil internações anuais por AVC na rede pública de saúde, conforme dados utilizados em levantamentos assistenciais. Em Feira de Santana, o Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), uma das principais referências no atendimento à doença no interior do estado, registrou 1.255 internações de pacientes com diagnóstico de AVC em 2025. Os números reforçam a importância da prevenção e do reconhecimento precoce dos sintomas.
Com a proximidade do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro, a neurocirurgiã Camila Moura chama a atenção para um aspecto decisivo no enfrentamento da doença: o tempo entre o aparecimento dos primeiros sintomas e o início do atendimento médico.
“O AVC é uma emergência neurológica em que cada minuto faz diferença. Quando uma região do cérebro deixa de receber sangue adequadamente, as células nervosas começam a sofrer danos. Quanto mais rápido o paciente recebe atendimento especializado, maiores são as possibilidades de reduzir sequelas e preservar funções importantes, como a fala, os movimentos e a memória”, explica a especialista.
Segundo a Organização Mundial da Saúde e estimativas internacionais sobre a carga global da doença, aproximadamente 12 milhões de pessoas sofrem um AVC a cada ano no mundo. Embora o risco aumente com a idade, a doença também pode atingir adultos jovens, especialmente aqueles que apresentam fatores de risco como hipertensão arterial, diabetes, obesidade, tabagismo, sedentarismo e alterações cardiovasculares.
O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para determinada região do cérebro é interrompido, geralmente pela obstrução de uma artéria, caracterizando o AVC isquêmico, ou quando há rompimento de um vaso sanguíneo, provocando uma hemorragia cerebral, no chamado AVC hemorrágico.
De acordo com Camila Moura, identificar os sinais iniciais é fundamental para evitar o agravamento do quadro. Entre os principais sintomas estão a perda repentina de força em um lado do corpo, a assimetria facial, a dificuldade para falar ou compreender palavras, as alterações súbitas da visão, a perda de equilíbrio e a dor de cabeça intensa e inesperada.
“Um dos maiores erros é esperar que os sintomas desapareçam. Muitas pessoas percebem que a boca está torta ou que um braço perdeu a força, mas aguardam uma melhora espontânea. Essa demora pode comprometer o resultado do tratamento. Diante de qualquer suspeita, é fundamental procurar atendimento de emergência imediatamente”, alerta.
Quando a neurocirurgia é necessária?
Embora nem todos os pacientes com AVC necessitem de cirurgia, a neurocirurgia pode desempenhar um papel fundamental em situações específicas, especialmente nos casos de hemorragias cerebrais, aumento da pressão intracraniana e outras complicações que colocam a vida do paciente em risco.
A especialista explica que a decisão por uma intervenção depende de fatores como o tipo de AVC, a localização e a extensão da lesão, o estado clínico do paciente e os resultados dos exames de imagem.
“A neurocirurgia pode ser necessária em determinadas situações para controlar complicações graves, aliviar a pressão sobre o cérebro ou tratar algumas causas de sangramento. Entretanto, cada caso precisa ser avaliado individualmente. O mais importante é que o paciente chegue rapidamente a uma unidade preparada para realizar o diagnóstico e definir a melhor conduta”, destaca Camila Moura.
Os avanços da medicina também ampliaram as possibilidades terapêuticas. Atualmente, pacientes selecionados com AVC isquêmico podem se beneficiar de tratamentos capazes de restabelecer a circulação sanguínea cerebral, como a trombólise e a trombectomia mecânica. Esses procedimentos possuem indicações específicas e dependem de avaliação especializada.
Prevenção começa antes dos primeiros sintomas
Apesar da gravidade, uma parcela expressiva dos casos de AVC está associada a fatores de risco modificáveis. Controlar a pressão arterial, acompanhar os níveis de glicose e colesterol, praticar atividades físicas regularmente, manter uma alimentação equilibrada, evitar o cigarro e realizar acompanhamento médico são medidas fundamentais para reduzir as chances de desenvolver a doença.
Outro ponto importante é não ignorar sintomas transitórios. Episódios de perda de força, dificuldade na fala ou alterações visuais que desaparecem espontaneamente podem representar um ataque isquêmico transitório (AIT), condição que exige avaliação médica urgente por estar associada ao risco de um AVC.
Para Camila Moura, ampliar o acesso à informação é uma das principais estratégias para reduzir os impactos da doença na população.
“A prevenção precisa fazer parte da rotina das pessoas. Muitas vezes, o AVC é consequência de fatores de risco que poderiam estar controlados há anos. Cuidar da pressão arterial, manter hábitos saudáveis e reconhecer os sinais de alerta são atitudes que podem salvar vidas. Informação também é uma forma de prevenção”, reforça a neurocirurgiã.
Em caso de suspeita de AVC, a recomendação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo número 192, e informar o horário em que os sintomas começaram ou a última vez em que a pessoa foi vista sem alterações. Mesmo que os sinais desapareçam, a avaliação médica de urgência continua sendo necessária.
